sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Entre Linhas da Constituição

Entre Linhas da Constituição:
O silêncio que julga: quando o Supremo fala sem palavras
Há dias em que o Supremo não precisa proferir uma sentença para estar presente. Ele paira. Observa. Silencia — e, ainda assim, julga.
Basta acompanhar o noticiário para perceber que o tribunal constitucional brasileiro se tornou parte do cotidiano, mesmo quando não ocupa as manchetes principais. Às vezes, não é o voto que chama atenção, mas o intervalo entre eles. O tempo suspenso. O pedido de vista que congela o país enquanto a sociedade aguarda, inquieta, um desfecho que parece sempre iminente.
O Supremo deixou de ser apenas um tribunal. Tornou-se um termômetro institucional. Cada decisão — e cada adiamento — reflete algo maior: tensões políticas, disputas narrativas, conflitos sobre os limites da democracia e da liberdade.
Curiosamente, quando decide, o aplauso e a vaia se dividem. Mas quando adia, o incômodo é quase unânime. Porque o tempo, no Direito, também é poder. Decidir quando decidir é, muitas vezes, tão relevante quanto o conteúdo da decisão.
Vivemos sob a lógica da urgência. Tudo precisa ser imediato, opinável, compartilhável. Nesse cenário, um tribunal que trabalha com prudência, ritos e silêncio deliberado parece, para muitos, deslocado do ritmo social.
Mas talvez o papel do Supremo seja justamente esse: lembrar que a Constituição não funciona na velocidade das redes sociais.
O problema é que o vazio institucional nunca permanece vazio. Ele é preenchido por especulações, versões e ruídos. Quando a decisão demora, o julgamento migra dos autos para os algoritmos — e aí o debate jurídico se dissolve em emoção.
O Supremo caminha hoje sobre uma linha estreita. Se decide rápido, dizem que extrapola. Se demora, acusam omissão. Se fala demais, politiza. Se fala pouco, se esconde.
Talvez o maior desafio contemporâneo do tribunal não seja interpretar a Constituição, mas ser compreendido em um país que desaprendeu a conviver com o tempo do Direito.
Fica, então, a pergunta que ecoa além dos votos:
em um Brasil que grita o tempo todo, ainda sabemos ouvir o silêncio institucional?

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